A Bíblia não pode estar acima da vida. A maior autoridade na vida é a vivência mesma e não o texto sagrado da religião. O que contraria um pilar da tradição evangélica. Proponho inverter a afirmação tradicional. A vida é a maior autoridade sobre a Bíblia.

A hermenêutica evangélica da Bíblia hierarquiza o texto sagrado dividindo-o em patamares de estilo e valor: o texto normativo e o narrativo. Por ser uma escrita escorregadia, marcada pelas singularidades e obscuridades das experiências humanas, o texto narrativo precisa ser iluminado pelo texto normativo, aquele que discorre sobre Deus e doutrina a vida do crente. Sendo assim, grande parte dos evangelhos e do Livro dos Atos dos Apóstolos careceria ser interpretada com o auxílio preciso das Cartas Apostólicas. Também se sujeitariam a estes os poéticos e apocalípticos. Afinal de contas, o que fazer com o sorteio que define a vontade de Deus para a substituição no colégio apostólico, ou com a quantidade exorbitante de vinho providenciada pelo festeiro Nazareno transformando água em vinho? Os narrativos escandalizam, os normativos devolvem a ordem.

Esta compreensão hierarquizada da Bíblia já é uma “ginástica” conceitual para administrar a violência imposta à vida humana ao submetê-la a uma autoridade carente de dinamismo, à força fria do que está escrito. Os textos narrativos, maioria sugestiva da Bíblia, são repletos de ambigüidades, contradições, tensões, becos sem saída e imprecisões, porque são o retrato da vida de homens e mulheres que experimentaram Deus em épocas e culturas próprias. Da mesma forma que o discurso religioso quer sujeitar a vida ao texto bíblico, sua hermenêutica obriga-se a calar a polifonia irresistível dos textos narrativos com a mordaça dos chamados textos normativos.

Como se já não bastasse a hercúlea tarefa de arranjar a “Bíblia” de forma a maquiar suas imprecisões textuais e sua distância cultural em relação ao leitor, impõe-se ao crente arranjar sua vida de forma a encaixá-la na moldura das Escrituras, ou pelo menos dar esta impressão. Entenda o enquadramento da vida pelas Escrituras pelo que delas se compreende e se institui como fiel interpretação. Assunto com que já nos ocupamos em textos anteriores a este.

Acredito que precisamos ampliar o alcance da doutrina cristã da encarnação. O Deus que se fez gente deveria ser a mais importante chave de compreensão da Bíblia. Sendo assim, podemos entender o gesto de se esvaziar da condição acima da vida para assumir a condição humana de viver como a rendição de Deus à única realidade em que o que diz à humanidade pode fazer sentido, na vivência.

A Palavra de Deus se enche de sentido no Verbo Encarnado. O Verbo Vivo não mata a vida para se impor como doutrina. “O ladrão vem para roubar, matar e destruir”. Doutrina que não se vivencia assalta a vida. Mas a Palavra encarnada é a que vivencia radicalmente a existência humana e nela promove a vida intensamente. (Jo 10.10) O movimento divino de encarnação é um ato libertador. É negação de qualquer fala que se desconectou da vida para a sua afirmação redentora. Antes de dizer, desdizer.

Talvez por isso Jesus tenha usado com freqüência as locuções “Ouvistes o que foi dito aos antigos (…) eu, porém, vos digo que (…)” (Mt 5.22-44) Um Deus encarnado precisa dizer de novo. Reinterpretar o que sempre disse, pois fala de dentro da dinâmica existencial dos viventes. Fala com cheiro, com timbre, com cara, com batimentos cardíacos, com cultura e história, é a Raiz de Jessé, o Filho de Davi. Judeu nazareno oprimido pelos romanos. É provavelmente carpinteiro, certamente pobre. É filho de Maria, primo de João Batista. É “comilão e beberrão”. É rabi. É o filho do homem. É gente. Tem que desdizer e dizer de novo.

Acredito que foi por isso que Jesus suspendeu a prática do jejum em determinado momento, rito previsto e normatizado na Lei, negando qualquer sentido ao jejum na “presença do noivo” Como também colocou o Sábado a serviço da vida humana e a libertou de seu senhorio desastroso: o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado. A vida é sagrada e não o mandamento do sábado. A Bíblia foi feita a partir da vida humana e não a vida humana a partir da Bíblia. A Bíblia sagra-se na vida.

Jesus re-significou a lei diante da mulher flagrada em adultério. A célebre pergunta “quem não tiver pecado atire a primeira pedra” seguida do perdão nada mais foi que a vida legislando sobre a Lei. Silenciou a opressão da palavra que acusa e condena e deu voz ao perdão e à esperança. Jesus é a vida se impondo sobre a letra. Mulher, onde estão os teus acusadores? Ninguém te condenou? Tão pouco eu te condeno. Vá e abandone a vida de pecado.”

A grande pressão sofrida por Jesus, sua maior tentação, foi a de inverter a relação. Violentar a vida impondo sobre ela as regras vindas do alto. Ao que respondeu com uma metáfora. “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto”. (Jo 12.24) Mesmo diante da morte previsível, Jesus se nega a jogar com outras regras que não as da vida. As únicas que poderiam produzir muito fruto. Regras acima da vida fariam a palavra de Jesus uma palavra solitária, sem sentido. A palavra encarnada na vida, inclusive na possibilidade previsível da morte, é solidária, é comunhão, são muitos frutos, tem muito sentido. O mundo é reconciliado com Deus apenas na palavra que frutifica no solo da existência humana.

É por isso que o pregador que vocifera promessas de milagre precisa deixar o púlpito e freqüentar os quartos de hospitais onde esperam pelo último suspiro centenas de enfermos. Gente que nunca experimentará a tal “fé” que produz milagres. Pela mesma razão lamento a dor, mas celebro a oportunidade de ter a companhia de pastores que experimentaram o fim do casamento. Eles sim têm o que dizer sobre a interpretação de textos bíblicos a respeito do divórcio e novo casamento. Festejo a globalização e o acesso em tempo real aos fatos do mundo, pois enquanto reclamamos de Deus um jeitinho para os nossos mínimos problemas somos também constrangidos pelos campos de refugiados em Darfur.

Não tenho dúvida de que essa necessidade de alçar o texto bíblico acima do mundo vivido é uma manobra de perpetuação de poder, ou seja, da religião instituída. Apenas a instituição teme a leveza da vida humana, sua imprevisibilidade a ameaça, seu descontrole a esvazia, sua circunstancialidade a relativiza. Por isso o texto precisa emoldurar a vida humana e confirmar a relevância da religião organizada. Não consigo parar de repetir que a Bíblia que se posiciona acima da vida é sempre a imposição de uma interpretação dela e nunca ela mesma.

A Bíblia em si mesma é a sabotagem divina à sistematização dos amantes do poder. A Bíblia é Babel. A confusão de línguas e histórias impedindo a divinização dos edifícios. Babel é a vida liberta por Deus das amarras hegemônicas dos poderosos. A Bíblia é Deus confundindo os esforços cartesianos de aprisionamento da verdade. A Bíblia é Deus libertando a vida das razões absolutizantes. A Bíblia é Deus babelizando os poderosos e espalhando a verdade por tantos viventes quantos haja. A Bíblia é tão narrativa quanto à vida. E tão desorganizada, imprevisível, imprecisa, surpreendente e contraditória quanto a vida de qualquer um de nós.

E é justamente porque a Bíblia se parece muito com a vida humana que tem muito e sempre o que dizer à humanidade. Sendo um livro essencialmente narrativo é Deus falando enquanto vivemos.

Gadamer fala da compreensão como um jogo. Um jogo dialógico e dinâmico. Como em um jogo, só se compreende bem algo, suas regras e funcionamento, a medida que é vivenciado. Aprendemos um jogo não quando lemos suas regras, mas quando o jogamos. Aí sua dinâmica é apreendida. Ninguém aprende a jogar a partir de uma manual de regras, mas a partir do jogo mesmo. Porque um jogo é muito mais que as regras de seu funcionamento. É intuição. Discernimento. Interpretação. Improviso. Imaginação. Só então as regras do jogo fazem algum sentido.

A Palavra de Deus também. Enquanto vivemos, a Bíblia pode ser compreendida na dinâmica do que experimentamos. O que diz só faz sentido a partir do que vivenciamos. O que acreditamos dizer a Bíblia como Palavra de Deus é apenas o que faz sentido na vida que experimentamos aqui e agora. O que cai no solo da existência humana e frutifica. O que promove e afirma a vida humana. “A letra mata, mas o Espírito vivifica”.

Para a vida humana, com tantas vozes e imprevisível, uma Bíblia tão falante e tão surpreendente.

Elienai Cabral Junior

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De que se compõe um motim? De nada e de tudo. De uma eletricidade que lentamente se propaga, de uma chama que subitamente cintila, de uma força que vagueia, de um sopro que passa. Esse sopro encontra cabeças que falam, cérebros que sonham, almas que sofrem, paixões que ardem, misérias que gritam, e leva tudo consigo.

Aonde?

Ao acaso. À revelia do Estado, à revelia das leis, à revelia do bem-estar e da insolência dos outros.

As convicções irritadas, os entusiasmos exasperados, as indignações emocionadas, os instintos de guerra comprimidos, as jovens coragens exaltadas, as cegueiras generosas; o sentimento que nos leva a ler com prazer o cartaz de um novo espetáculo e a gostar de ouvir no teatro o apito do contra-regra; os ódios vagos, os rancores, os desapontamentos, todas as vaidades que acreditam ser vítimas de uma bancarrota do destino; a falta de meios, os sonhos vazios, as ambições rodeadas de dificuldades, os que esperam de um desabamento uma saída; finalmente, no nível mais baixo, a turba, essa lama que se incendeia, tais são os elementos do motim.

O que há de maior e o que há de mais ínfimo; seres que vagam excluídos de tudo, à espera de uma oportunidade, boêmios, gente sem ocupação, vagabundos das ruas, os que à noite dormem em um deserto de casas sem outro teto que as frias nuvens do céu, os que, a cada dia, pedem pão ao acaso e não ao trabalho, os desconhecidos da miséria e do nada, os  braços nus, os pés descalços, estes pentencem à revolta.

Quem quer que abrigue na alma uma revolta secreta contra um fato qualquer do Estado, da vida ou da sorte, se encerra na revolta e, asim que ela aparece, começa a agitar-se e a sentir-se impelido pelo turbilhão.

O motim é uma espécie de tufão da atmosfera social que se forma repentinamente em certas condições de temperatura e que, em seu rodopio, sobe, corre, estoura, arranca, arrasa, esmaga, derruba, puxa as raízes, arrastando consigo as grandes naturezas bem como as mesquinhas, o homem forte e o espírito fraco, o tronco de árvore e o fragmento de palha.

Infelizes tanto dos que arrebata quanto dos que atropela! Um é jogado contra o outro.

Comunica as que a ele aderem não se sabe que poder extraordinário. Preenche os desavisados com a força dos acontecimentos; transforma tudo em projéteis. De um seixo faz uma bala, de um entregador faz um general.

Se dermos crédito a certos oráculos da política hipócrita, do ponto de vista do poder, um pouco de revolta é desejável. Esquema; a revolta reforça os governos que não derruba; põe à prova o exército; concentra a burguesia; distende os músculos da polícia; constata a força da ossatura social. É uma ginástica; é quase uma higiene. O poder se sente melhor depois de um motim, como o homem depois de uma massagem. (Victor Hugo, Os Miseráveis, vl.2, pág.224-225)

Nossa idéia de verdade é a da repetição. Tomamos por verdadeiro o que nossa experiência repetidas vezes verifica. Se o fenômeno se repete sabemos o que ele é. Descrevemos, classificamos e relacionamos a ele outros prováveis fenômenos. Como o sol que nasce e se põe diariamente. É a verdade científica em sua forma mais rude. Verdade é repetição.

Não por acaso o discurso cristão sobre a Bíblia reproduz a mesma lógica. Primeiro, olhamos o texto bíblico como uma descrição exaustiva das verdades da nossa fé e conduta. Depois, a necessidade de apresentar nossas certezas sobre o que cremos obriga-nos a transformar toda e qualquer leitura da Bíblia em uma repetição. Até porque se, ao voltar ao texto, algo surpreendente se mostrar, vão-se pelo ralo da incerteza nossas presunções. E aqui já descobrimos que nossa leitura da Bíblia começa bem antes de ter o texto diante dos olhos.

Funciona assim. A princípio, tomamos a Bíblia como uma fonte inesgotável de verdades. A utopia da revelação. E a idéia torna-se ainda mais romântica, pois cada pessoa deve ler o texto bíblico sem a mediação de qualquer instituição, é o “livre exame” das Escrituras. Mas a bibliologia protestante termina por se mostrar contraditória em seus demais critérios. Afirma-se que a mensagem bíblica é inconfundível, tendo em vista sua “infalibilidade”. Suas verdades são inegáveis, sua “inerrância” o pressupõe. É um guia primaz para a vida, este afinal é o seu papel como “único padrão de conduta e fé”. Nossa confiança nela deve ser absoluta, pois Deus nada tem a dizer menos nem mais do que nela está dito. Na altura do campeonato já ficou evidente que “a fonte inesgotável” secou. Tanta certeza. Tanta confiança. Tanto padrão não pode dar espaço para o imprevisível, o novo, o surpreendente, o misterioso. A Bíblia, ou é revelação ou é padrão. Ou revela, ou certifica.

Acredito que a Bíblia deixou de ser revelação ante a exigência de certeza. Nosso esforço de apresentar o texto bíblico como fundamento para a crença obrigou-nos a incorporar à leitura a repetição. Da mesma forma que sobre os fenômenos naturais podem-se afirmar coisas com base na sua repetição controlada, sistematizamos nosso pensamento sobre Deus, harmonizamos o texto para confirmar dogmas e impomos à Bíblia uma monofonia, uma teologia unívoca. E aquele que fugir à repetição comete erro, perde-se da verdade trilhada pelos fiéis, torna-se um herege.

Entre o leitor e a Bíblia instala-se uma lente escrupulosa de dogmas. Sendo assim, nem quem lê exerce o “livre exame” e nem a Bíblia pode ser experimentada como revelação. A leitura é repetitiva pela superposição do dogma à experiência com o texto, ao fazê-la já se sabe o que deve dizer. A leitura é antecipada pelo que dela já se sabe. O que termina sendo uma leitura cega. Não se vê nada além do que a dogmática já viu.

A repetição da leitura por dogmas lança-nos ao tédio insuperável. Talvez por isso a leitura da Bíblia tenha se transformado em um exercício ascético na espiritualidade protestante. Ler a Bíblia é um dever do fiel que busca santificar-se. Porque ler a Bíblia pela repetição é o mesmo que resistir às tentações dos prazeres. Devem-se juntar à disciplina da leitura bíblica, horas de oração de joelhos e um longo tempo de jejum, exercícios sofridos que prometem depurar a alma de seus apetites desordenados! Nem de longe isso se parece com a experiência de prazer sugerida por um poeta na Bíblia. Ele a compara à doçura do mel. “Como são doces para o meu paladar as tuas palavras! Mais que o mel para a minha boca!” (Sl 119.103) A Bíblia do beato é repetição enfadonha. A Bíblia do poeta é revelação apetitosa.

Ler a Bíblia pelas lentes do dogmatismo impõe a repetição como método de apreensão da verdade e fecha os olhos para a experiência da revelação. A revelação se opõe à repetição dogmática assim como o novo se opõe à mesmice, o inesperado ao previsível, o mistério ao banal.

Mas a revelação não pode ser vista como uma categoria bíblica. Uma marca de exclusividade. O que se constitui em uma contradição. Ao tratá-la como categoria apenas afirmamos artificialmente sua legitimidade, ou seja, ela se torna digna porque dela dizemos que é a revelação completa de Deus. No entanto, se for revelação como um ponto final para a possibilidade do novo, deixa de ser. E a Bíblia deveria passar a ser tratada como o fim da revelação de Deus. Deus e as suas palavras acabariam nas páginas da Bíblia. Ela seria o silêncio de Deus. Cabendo aos leitores recuperar o que já foi dito.

A revelação precisa ser encarada como a infinita possibilidade oferecida pelo texto. A revelação não é um pressuposto, mas uma experiência com a Bíblia. Uma experiência inusitada com o que da verdade se mostra. Com um sentido da verdade. A revelação não é o que aconteceu e por isso a Bíblia se tornou confiável. A revelação é o que pode acontecer infinitamente e por isso a Bíblia é inesgotável.

A descoberta de quem experimenta a revelação na Bíblia não pode ser de uma verdade totalizadora, mas da finitude de si mesmo, de sua atordoante relatividade. Diante do Deus que nela posso ver e das possibilidades de viver que dela se desprendem me descubro como um bebê recém parido. Muita luz, muito mundo, muita vida para tão frágil criatura. Pequeno e confuso olhar para um mundo de luzes a ser explorado. Quanto mais me percebo finito, mas o infinito se revela. Quanto mais profunda minha descoberta de finitude, mais livre me percebo diante de tudo. Tanto Deus. Tanta vida. Tanto mundo. Tanto a experimentar.

A experiência com a revelação precisa ser como um breve, surpreendente e libertador descortinar da verdade. Não é ela toda. Seria o fim, seria uma prisão. Mas apenas um insight dela. Não uma repetição enfadonha do que sempre foi, mas um alumbramento de uma parte de tudo o que pode ser. Um texto e infinitas possibilidades.

Elienai Cabral Junior

Chamamos de preconceituoso aquele a quem xingamos. Um condenado ao inferno da ignorância. A pessoa preconceituosa é a que conduz para o ato do conhecimento uma opinião já formada sobre o assunto. Sua concepção orienta a apreensão de novos conceitos. Dessa forma, agir preconceituosamente é impedir-se o acesso ao conhecimento mais profundo, ou à verdade.

Um pouco mais do mesmo. Um preconceito é como uma impureza no manuseio da verdade. Quem quiser chegar a um conhecimento legítimo precisará purificar-se de qualquer idéia que possa influenciar a compreensão do objeto. O preconceito, pensando assim, distorce o conhecimento pretendido.

É com essa advertência que a epistemologia moderna indica o acesso ao conhecimento bem fundamentado. É com essa perspectiva que o fundamentalismo resolve o nó de sua pretensão de posse absoluta da verdade sobre Deus: o intérprete que há entre o texto bíblico e o que dele se diz. O cientificismo propõe para o bom conhecimento o método, o rito de purificação das idéias, que promete livrar a interpretação de todos os preconceitos. A hermenêutica fundamentalista apresenta uma ciência de interpretação, letrista e imparcial, que pode fornecer a confiança de que sua aplicação redundará em uma “reta doutrina”. Livre-se dos preconceitos e descubra a sã doutrina! Lindo, se não fosse uma tolice.

A lógica moderna chegou ao limite dessa pretensão ao propor uma linguagem artificial, uma linguagem matemática, para articular todo e qualquer conhecimento. Uma linguagem pura, sem as ambigüidades da linguagem historicamente constituída. A compreensão fundamentalista da Bíblia também tem a sua linguagem artificial. É o dogma da inspiração verbal-plenária das Sagradas Escrituras, tudo o que está no texto é absolutamente dito e orientado pelo próprio Deus, portanto, é um texto inerrante e infalível. Se formos capazes de dominar o super-texto, tal como o lógico quer dominar a linguagem científica, nosso discurso será digno de confiança.

Mas tudo seria perfeito se não fosse humano. A inserção do humano é a manifestação do provisório, do incerto, do ambíguo, do contraditório, do histórico, do finito. Entrou gente, chegou o duvidoso. Se há a liberdade humana, também há a imprevisibilidade. Por isso, é impossível a tal relação pura com a verdade. É impensável a compreensão das Escrituras sem os preconceitos.

Uma pessoa não recebe a linguagem como um processador previamente programado recebe um banco de dados. A linguagem é a experiência da pessoa com o seu mundo. Uma experiência histórica, por isso processual e finita. Em um mundo intersubjetivo, por isso ambígua e conflitante. A pessoa nasce e se desenvolve com linguagem. O que fala e compreende ganham sentido à medida que experimenta socialmente o seu mundo e o seu tempo. Uma palavra significa sempre alguma coisa muito rica e prolífera. Ou seja, uma coisa sempre significa um mundo de coisas. Dizer algo remete a muitas experiências e sentidos. É tanto assim que a teoria literária fala do texto como algo que deixa de pertencer ao seu autor quando ofertado aos leitores. E o que significa não é o que o autor poderia originariamente pretender, mas tudo o que incorre na leitura de quem o faz.

Tentar ler qualquer coisa sem preconceitos, sem os sentidos carregados de antemão, é o mesmo que não ler. Ninguém lê sem uma bagagem nas costas. Uma palavra só é lida, ou compreendida, ou dita porque faz parte de uma lógica, de um modo de compreender agregado historicamente. Senão, nada diz. Senão, nada significa. Então, não há leitura não preconceituosa possível. Quando eu leio “amor” só compreendo porque tenho “amor” na bagagem. O “amor” que leio funde-se com o “amor” que carrego e minha bagagem se transforma e aumenta. Isso é compreensão.

É a hermenêutica de Hans-Georg Gadamer que propõe a imprescindibilidade dos preconceitos para a compreensão. Marco Antonio Casanova, em seu excelente artigo sobre a hermenêutica gadameriana diz: “No momento em que nos aproximamos do texto, já nos vemos orientados por uma série de expectativas de sentido e significação que nunca podemos descartar por completo. Mais ainda: se pudéssemos algum dia suspender essas expectativas, tal suspensão não implicaria senão uma inviabilização imediata e completa do movimento mesmo de leitura.” [1]

Não só não podemos ler sem os preconceitos, como eles também são componentes riquíssimos para uma compreensão atual das Escrituras. São os preconceitos que atualizam e fazem ter sentido o que compreendemos. São eles que conectam as Escrituras com o nosso mundo, nossa vivência e nossas aspirações. São eles que nos fazem herdar hoje as idéias do que já estava escrito.

Sendo assim as palavras também podem ser entendidas como uma herança de sentidos acolhida com a compreensão. Ler é herdar valores. Sentidos até então escondidos nas palavras. Mas desvelados no encontro das palavras que eu carrego com as demais. Leitura é encontro de palavras, as que estão em mim com as que estão no texto. Leitura é o sentido desvelado no encontro das palavras. Leitura é herança de sentidos. É herança e revelação.

“A fé vem pelo ouvir a palavra, mas como crerão se não há quem pregue?”. Porque só as palavras falam às palavras. Porque apenas as palavras ouvem as palavras. Só os preconceitos nos dão ouvidos de verdade. Só os preconceituosos herdarão as palavras. E o Reino de Deus.

Elienai Cabral Junior


[1] CASANOVA, Marco Antonio. A compreensão em jogo ou o jogo da compreensão. Artigo publicado pela revista Mente.Cérebro e Filosofia, nº11, pág. 63.

Apanhar o que tu mesmo jogaste ao ar

Nada mais é que habilidade e tolerável ganho;

Somente quando, de súbito, deves apanhar a bola

Que uma eterna comparsa de jogo

Arremessa a ti, ao teu cerne, num exato

E destro impulso, num daqueles arcos

Do grande edifício da ponte de Deus:

Somente então é que saber apanhar é uma grande riqueza

Não tua, de um mundo.

Memorizar versículos sempre foi uma prática distintiva dos protestantes. Uma memória com a promessa de municiar o crente para o enfrentamento da vida. Para cada situação há os recortes do texto bíblico capazes de diluir resistências, superar dúvidas, vencer embates pela razão, acalmar, motivar, consolar, sustentar o dono da memória enquanto vive.

Lembro dos cultos em que o louvor era seguido por um momento de recitação de versículos da Bíblia. Na Escola Bíblica, memorizar o versículo bíblico era condição para uma aula bem sucedida. O bom “evangelista”, este conquistador de adesões, destacava-se pela habilidade de sacar o texto, com a devida referência bíblica, apropriado para cada contestação dos resistentes à pregação. Uma pregação bíblica confunde-se entre protestantes com uma pregação que cita muitos textos bíblicos, mesmo que a exposição das idéias mostre-se rasa ou um lugar comum.

A mania de memória além de carregar a crença acrítica de que o conhecimento imediato do texto é posse plena da verdade, desprezando a mediação dos conceitos, também expõe a falência do projeto de quem dela faz uso: a busca desesperada de memória. Buscamos memória porque perdemos a presença. Quanto menos há, de mais lembrança carecemos. Quem faz o álbum das fotos é quem encerrou as férias. Quem, além do apaixonado por fotografia, gasta as suas férias para apreciar as fotos que dela está fazendo? O fato presente prescinde de memória. Ninguém precisa lembrar do que ainda está fazendo. Fixam-se lembranças do que agora está vazio.

Ninguém precisa se lembrar do que presencia. E quanto mais presentes nós estamos em um movimento mais dele nos esquecemos. A melhor imagem que me ocorre é a do motorista. Dirige bem quem se esquece dos mecanismos da direção e se ocupa tão somente do trânsito. Quem é o bom motorista? O que precisa listar de memória cada movimento do câmbio e sua sincronia com os pedais, ou quem o faz sem sequer se dar conta de que pressiona o pedal da embreagem à medida que encaixa a próxima marcha? Aprendemos a dirigir quando nos esquecemos dos mecanismos da direção enquanto dirigimos.

É assim com tudo o que é presente na vida. Quanto mais presente e pertencente a nós algo é mais dele nos esquecemos. É assim quando lemos, quando fazemos cálculos, quando jogamos, quando fazemos sexo, quando comemos, quando vivemos.

A dor é outro exemplo. Não nos lembramos das partes do corpo se com elas está tudo bem. Quando nos lembramos do dente é porque ele está doendo. A lembrança no corpo é sua doença.

Não pode ser diferente com a Bíblia. Ela é uma literatura que de tão identificada com a nossa vida é viva. Sua memorização é certificação de seu adoecimento ou morte. Sua presença em nossa prática, relações, escolhas, sentimentos, moralidade, afeições, é proporcional ao seu esquecimento. Se pudermos falar de uma mente bíblica, ou de viver biblicamente, diremos que uma prática bíblica é a que da Bíblia não precisa fazer referência para por ela ser afetada. Pois o que precisa ser ritualmente memorado está longe, tanto quanto se esquece de algo de tão presente que se faz.

Niezsche denuncia a memória como um mal humano na Segunda Dissertação da sua Genealogia da Moral. Chama a memória de desejo de controle do futuro. Precisamos de memória porque na ânsia de controlar o futuro fazemos promessas e com elas comprometemos nossa existência com o que não está mais presente. Essa necessidade de memória impede o esquecimento como o corpo doente é impedido da digestão. O indivíduo que busca a memória é como o apéptico, o que não faz digestão, regurgitando idéias mortas, ressentindo o que já passou.

A melhor Bíblia é a que esquecemos de tão digerida e absorvida por nossa vivência. A Bíblia que precisa ser memorizada é uma porção indigesta. Nem poderia ser diferente. Transformá-la em uma coleção sistemática, simétrica e absoluta de verdades é roubá-la de sua digestibilidade, sua profunda e radical penetração em nossa vida. A Bíblia que deixa de ser literatura, visto que é essencialmente narrativa e poética, torna-se morta de tão distante e estática. Um clamor desesperado à memória. Um mortuário da fé.

A Bíblia que está de fato em nós é a que esquecemos. De tanto que faz sentido. De tanto que nos permeia.

Um velho guarda-roupa.
Ricardo Gondim.
Meu guarda-roupa também foi um portal mágico. Era um móvel encantado, de duas portas estreitas, com um cabide de madeira e duas pequenas gavetas na parte de baixo.

A princípio, só servia para brincar. Depois, aprendi a enfurnar-me em suas entranhas para ficar só. Numa casa em que moram pais, tios e cinco irmãos, faltam lugares para desaparecer. Eu precisava de uma toca, um esconderijo secreto, sem luz, onde não escutasse barulho e ninguém me achasse.

Para sumir, engatinhava por baixo das camisas curtas, dava um leve puxão na porta e sumia. Um mundo maravilhoso se escancarava na minha frente. Nesse mundo, não havia leões, neve ou perigos. A única feiticeira que me visitava, apagava a claridade no meio da tarde para eu mergulhar em trevas profundas. O calor não me importava. Naquele breu, o relógio dava tréguas e eu experimentava o nada; o mesmo nada que povoa a eternidade. Não, não era uma ausência de morte, semelhante a um aniquilamento. Eu entrava no nada contemplativo, no denso vazio onde vivem os deuses.

Os guarda-roupas já não me cabem mais. Mas ainda careço de solitude. Procuro transformar a cama em cova profunda e não consigo. Imagino que a luz da alvorada me empurra até os confins do universo. Tento me convencer que hei de calçar as botas-sete-léguas, comprar um tapete mágico para alcançar o horizonte da eternidade. Inútil! Só o meu velho guarda-roupa tinha poder. Como voltar à barriga daquele grande peixe de madeira que me conduzia ao céu?

Adolescente, o velho guarda-roupa transformou-se em cofre. Por debaixo de suas gavetas, escondi as revistas proibidas que acendiam o vulcão do sexo. Derramei naquele armário muito amálgama erótico. E como lhe sou grato por manter-se discreto. No oculto absoluto de suas entranhas, calei a culpa insaciada de uma ressaca lasciva.

Por anos, os cabides do meu guarda-roupa foram poucos. Para não repetir camisas, eu precisava revezar com meu irmão. E o grande baú testemunhou como sofri com as minhas primeiras crises consumistas. Eu não podia namorar duas semanas seguidas com as mesmas calças, Renato Jorge e eu nos tornamos sócios. O calendário, entretanto, não coincidia sempre. Certa noite, tive que ir a uma festa e só restavam algumas camisas desbotadas. E a melhorzinha estava agendada para o Jorge. Tentei dissuadi-lo, mas não teve jeito. Brigamos. Aos gritos, empurrei meu irmão que, para apoiar-se, arrancou as dobradiças do nosso querido guarda-roupa. Ainda sofro por ter mutilado a minha primeira alcova com tanto egoísmo.

O meu guarda-roupa atual é embutido. Sem alma. Não passa de um depósito, onde armazeno indumentária. Ah, como sinto saudade do meu amigo de casca escura. Embora antigo e feio, nele guardei imagens e cheiros do Paraíso.

Soli Deo Gloria.

A pretensão piedosa de muitos cristãos de se apoiarem peremptoriamente no que dizem as Escrituras é no mínimo ingênua. Partem do pressuposto impensado de que há uma compreensão absoluta do que está escrito. Que por sua vez funda-se na idéia de que a verdade seja algo pronto, do lado de lá do pensamento, grafado no texto bíblico, apenas à espera que pessoas dela tomem posse.

A compreensão da verdade pensada assim elimina a mais humana das ações: a interpretação. Somos todos seres de interpretação. Uma vaca não interpreta, apenas reage. Uma pessoa não reage apenas, interpreta. Não há possibilidade de haver uma ação humana sem que também aconteça uma interpretação. Uma verdade nunca está do lado de lá pronta para ser possuída. Toda apreensão de idéias é um movimento impreciso e participativo de interpretação.

As páginas da Bíblia não são gavetas que guardam verdades, mas a coleção de narrativas e dissertações que nos convidam ao aprendizado. Nem seus leitores são desengavetadores inertes e neutros de conteúdos prontos. A Bíblia é um livro forjado com múltiplas interpretações. Desde sua escrita original, traduções e versões, o texto é marcado pela confluência de mentes que dela participaram. Juntamos a isso as teologias, tradições e culturas que têm na Bíblia ao menos uma referência de valor e temos um mundo indeterminado de olhares em suas páginas. Porque simplesmente é impossível à mente humana ler sem interpretar e interpretar sem entrar em conflito com outras e diversas interpretações.

Quem quer que afirme apoiar-se absolutamente no que dizem as Escrituras está na verdade dizendo que se apóia em uma tradição de pensamento e do que dela compreende.

O que chamamos de verdade bíblica é uma miragem. Porque não há possibilidade de existir um conteúdo de afirmações atemporal e universal. Por tudo o que já se disse acima. Ao entrar em contato com uma afirmação coloco em movimento todos os preconceitos, tradições, sentimentos, aspirações do meu tempo, questões da minha época, tudo o que em mim participa do modo como interpreto a vida e as pessoas à minha volta. A verdade é relativa a mim, e tudo o que em mim participa do que compreendo. A verdade é necessariamente provisória. Está sempre em construção.

O que chamo de verdadeiro não é um bloco maciço de idéias, mas um corpo inacabado e dinâmico de perspectivas. As verdades humanas nunca são absolutas, são sempre finitas e processuais. Qualquer outra candidata à verdade que se pretenda completa, universal e insuperável pelo tempo fala uma língua incompreensível à mente humana. Nada comunica. Não nos diz respeito. Nem dela podemos fazer referência. Se nos referimos a uma idéia, interpretamos.

Isso significa que sempre que alguém arroga para si a posse de uma verdade absoluta está de fato absolutizando uma versão, a que prefere os interesses de quem está acomodado ao que prevalece em seu mundo. A história não deixa dúvidas sobre os absurdos já cometidos em nome da posse inquestionável da verdade. Mas certamente o maior dos absurdos é a desumanização de todos que entram em contato com tal pretensão. Na medida em que uma idéia é absolutizada, as pessoas são pulverizadas. Quem sai em defesa da posse da verdade perde o outro de si mesmo, ou seja, a sua própria consciência e suas reivindicações por novas respostas. Perde também o outro além de si, ou seja, tudo e todos ao seu redor que divergem em busca do diálogo.

Quem quiser encontrar a Palavra de Deus e não perder a si mesmo e aos outros sob a prepotência de posse absoluta da verdade precisará ir além do que está escrito. Precisará abrir-se para fundir horizontes. De quem escreveu, da tradição e os de seu tempo. Precisará de modéstia para as alteridades envolvidas no texto. Precisará de compromisso com o seu mundo e suas dores. Precisará de imaginação e delicadeza.

Porque a Palavra de Deus não é a Bíblia, mas as suas entrelinhas.

Elienai Cabral Junior

Alguém disse que gosta das coisas que escrevo, mas não gosta do que penso sobre Deus. Não se aflijam. Nossos pensamentos sobre Deus não fazem a menor diferença. Nós nos afligimos com o que os outros pensam sobre nós. Pois que lhes digo que Deus não dá a mínima. Ele é como uma fonte de água cristalina. Através dos séculos os homens tem sujado essa fonte com seus malcheirosos excrementos intelectuais. Disseram que ele tem uma câmara de torturas chamada inferno onde coloca aqueles que lhe desobedecem, por toda a eternidade, e ri de felicidade contemplando o sofrimento sem remédio dos infelizes.

Disseram que ele tem prazer em ver o sofrimento dos homens, tanto assim que os homens, com medo, fazem as mais absurdas promessas de sofrimento e autoflagelação para obter o seu favor. Disseram que ele se compraz em ouvir repetições sem fim de rezas, como se ele tivesse memória fraca e a reza precisasse ser repetida constantemente para que ele não se esqueça. Em nome de Deus os que se julgavam possuidores das idéias certas fizeram morrer nas fogueiras milhares de pessoas.

Mas a fonte de água cristalina ignora as indignidades que os homens lhe fizeram. Continua a jorrar água cristalina, indiferente àquilo que os homens pensam dela. Você conhece a estória do galo que cantava para fazer nascer o sol? Pois havia um galo que julgava que o sol nascia porque ele cantava. Toda madrugada batia as asas e proclamava para todas as aves do galinheiro: “Vou cantar para fazer o sol nascer”. Ato contínuo subia no poleiro, cantava e ficava esperando. Aí o sol nascia. E ele então, orgulhos, disse: “Eu não disse?”. Aconteceu, entretanto, que num belo dia o galo dormiu demais, perdeu a hora. E quando ele acordou com as risadas das aves, o sol estava brilhando no céu. Foi então que ele aprendeu que o sol nascia de qualquer forma, quer ele cantasse, que não cantasse. A partir desse dia ele começou a dormir em paz, livre da terrível responsabilidade de fazer o sol nascer.

Pois é assim com Deus. Pelo menos é assim que Jesus o descreve. Deus faz o sol nascer sobre maus e bons, e a sua chuva descer sobre justos e injustos. Assim não fiquem aflitos com minhas idéias. Se eu canto não é para fazer nascer o sol. É porque sei que o sol vai nascer independentemente do meu canto. E nem se preocupem com suas idéias . Nossas idéias sobre Deus não fazem a mínima diferença para Ele. Fazem, sim, diferença para nós. Pessoas que tem idéias terríveis sobre Deus não conseguem dormir direito, são mais suscetíveis de ter infartos e são intolerantes. Pessoas que têm idéias mansas sobre Deus dormem melhor, o coração bate tranqüilo e são tolerantes.

Fui ver o mar. Gosto do mar quando a praia está vazia da perturbação humana, Nas tardes, de manhã cedo. A areia lisa, as ondas que quebram sem parar, a espuma, o horizonte sem fim. Que grande mistério é o mar! Que cenários fantásticos estão no seu fundo, longe dos olhos! Para sempre incognoscível! Pense no mar como uma metáfora de Deus. Se tiver dificuldades leia a Cecília Meirales, Mar Absoluto. Faz tempo que, para pensar sobre Deus, eu não leio teólogos; leio os poetas. Pense em Deus como um oceano de vida e bondade que nos cerca. Romain Rolland descrevia seu sentimento religioso como um “sentimento religioso”. Mas o mar, cheio de vida, é incontrolável. Algumas pessoas têm a ilusão que é possível engarrafar Deus. Quem tem Deus engarrafado tem o poder. Como na estória de Aladim e a lâmpada mágica. Nesse Deus eu não acredito. Não tenho respeito por um Deus que se deixa engarrafar. Prefiro o mistério do mar… Algumas pessoas não gostam do que penso sobre Deus porque elas deixam de acreditar que suas garrafas religiosas contenham Deus…

A probidade, a sinceridade, a candura, a convicção, a noção do dever, são coisas que podem tornar-se medonhas quando mal interpretadas, mas que, mesmo medonhas, continuam grandiosas; sua majestade, própria da consciência humana, persiste no horror. São virtudes que têm um vício, um erro. A alegria impiedosa, mas honesta, de um fanático em plena atrocidade, conserva um certo brilho lugubremente venerável. Javert, sem suspeitar, em meio a sua formidável felicidade, era lamentável, como todo ignorante que triunfa. Nada mais pungente e terrível que aquele rosto, mostrando o que poderia ser chamado de toda a maldade do bem. (Victor Hugo, Os Miseráveis)

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